A
Teoria Crítica de Adorno e Horkheimer - Liberdade, Poder e Escravização
Moderna. Análise baseada no livro: “Dialética do Esclarecimento”. [1]
Introdução.
O processo de dialética do
esclarecimento marcou, pois, uns dos fundamentais pilares do pensamento;
principalmente na sociologia e, outrossim, na filosofia contemporânea. .A chamada
“teoria crítica” proferida por Adorno e Horkheimer; marcaram uma ruptura para integibilização
do processo histórico da chamada época da razão; ou, dito de outro modo: das
causas e resultados do Iluminismo no Ocidente. Desenvolveremos o nosso trabalho tendo como
foque os conceitos de: liberdade, poder e escravização em perspectiva frankfurtiana.
Conjuntura do pensamento de Theodor Adorno.
Se faz mister; pois, entender o problema
colocado por uma escola de pensamento; e, também qual a sua contribuição ao
longo da História da Filosofia. Vamos aqui expor sumariamente para que nós
possamos analisar a filosofia da escola de Frankfurt dentro dessa historicidade.
Com a saída da modernidade (principalmente
com as filosofias de Kant e Hegel e o Marxismo); surge uma grande manifestação
para pensar problemas que até então não tinham sido abordados da maneira como
iremos descrever nesse trabalho. Se o Kantismo é o fundador da epistemologia
moderna; e Hegel um dos últimos a propor “um grande” sistema filosófico; o que
os Frankfurtianos tentaram promover em sua filosofia será uma Teoria Crítica (inspirada
na dialética hegeliana e em alguns conceitos do Marxismo) para tentar entender
a falha do projeto iluminista; ou seja, o fracasso da “Razão Instrumental”.
Como que a liberdade (que foi um arauto
dos tempos modernos; e que nos prometeu salvar e desencantar o mundo que fora
dominado pelo pensamento escolástico); pode manter-nos aprisionado e
coisificados?
O que é a razão instrumental? Será o homem Racional da Ilustração realmente livre?
Esses
problemas originais; e, igualmente suas respostas, serão dadas por Adorno em
suas reflexões filosóficas.
A Filosofia.
Para Adorno um dos grandes problemas da
modernidade seria a coisificação do ser humano através do esclarecimento ou de
um razão instrumental. Porém o que viria a ser essa razão?
Segundo os filósofos; a partir não apenas do iluminismo, porém já nas grandes
narrativas homéricas; o homem com o objetivo de desmitologizar a natureza para
melhor compreende-la, controlar e dominá-la; se fez necessário definir
conceitos, teorias e princípios analíticos que prometiam ao ser humano uma
maior liberdade de pensamento e de ação em qualquer conjuntura. Isso seria,
pois, a Razão Instrumental: uma hipérbole
da valorização do racional para a sua
instrumentalização e dominação no mundo.
Com o inicio da modernidade existiu,
segundo os autores, toda uma matematização das ciências. A configuração
clássica proposta por Francis Bacon sobre os diversos “ídolos” que impediriam o
avanço da mesma é muito citado por Adorno. Para o esclarecimento, aquilo que
não se reduz a números; e, por fim a uma “certeza apodítica”
passa a ser uma ilusão. Sendo que: “o positivismo moderno remete-o para a
literatura” (Adorno, 1985 p. 27).
Assim a Ciência Moderna com a sua promessa de liberdade
de pensamento e desencantamento do mundo aparece como um engodo para o homem
racional. Não mais liberdade; porém escravização, submissão à linguagem, aos
comportamentos e, outrossim, aos signos da mesma.
No livro supracitado ocorre uma longa
discussão sobre as primeiras explicações mitológicas. Os mitos, segundo os
autores, ganharam força não somente pelo seu caráter explicativo; porém pelo
seu caráter repetitivo em discurso. O
que outrora era feito com a magia, com os rituais, sacrifícios, holocaustos e linguagem
esotérica; hoje acontece o mesmo processo de alienação e de dominação através
do cientificismo. Pois aquele que domina
a linguagem científica, possui, ou, controla o poder... Todavia aquele que é
alheio a mesma está sempre subjugado e dominado por essa linguagem e
pensamento.
O comportamento humano e às tendências
hodiernas são montadas por verdades não, mas míticas; porém, cientificas. E a ciência ou as suas verdades que são
múltiplas, porém, que buscam sempre a universalidade; possuem a capacidade de
moldar e engendrar diversas tipologias comportamentais, de valores e padrões no
seres humanos. Graças à repetição ou sublimação (conceito muito utilizados tanto
na psicanálise quando em Adorno) acabam gerando um efeito cíclico, hipnótico
sobre as diversas pessoas de um corpo social.
O preço da dominação não é meramente a alienação dos
homens com relação aos seus objetos dominados; com a coisificação do espírito,
as próprias relações dos homens foram enfeitiçadas, inclusive as relações de
cada individuo consigo mesmo (ADORNO, HORKHEIMEN, 1985, p. 35)
Soma-se isso ao fato de toda a ciência
atual está configurada em linguagem matemática; o que dá uma falsa impressão de
neutralidade cientifica. Porém é de notar que quanto mais avançamos em caráter
cientifico, tecnicista e mecanicista; mais coisificamos a nós mesmos. Assim, pois, a interpretação frankfurtiana é
que: a perda do sujeito, ou do “eu”
moderno é uma característica da sociedade burguesa.
A divisão do trabalho e a promoção da hierarquia
social ajudam também que existiam diversas camadas de discursos; e que muitos
se sobreponham uns aos outros. Dito de outro modo, a objetivação complexa da
realidade acaba por gerar uma nulidade do sujeito que pretendia dominar a
natureza. Porém, que agora volta à irracionalidade, e, também: a “ilogicidade”.
Todavia com uma “certeza” afirmada pelo caráter positivista das ciências. Nesse sentido percebemos que a dialética do
esclarecimento nada mais é que um pensamento totalitário que busca não somente
a hegemonização; porém como a modelagem dos diversos atores sociais em um determinado
lócus.
A
liberdade proposta pela hipostasia da razão instrumental,
segundo Adorno, gerou uma grande paradoxo (ainda que irônico e pessimista):
proclamou a destruição, alienação, escravidão de todos aqueles entes que vivem
dentro dessa linguagem cientificista, analítica e conceitualista.
O mito recontado e dentro de um processo
histórico passa a ter força de uma doutrina. Dito de outro modo, o mito passa a
ser fonte de significação para a explicação do mundo. A partir da conversão do
mito em esclarecimento; o homem comanda a natureza através da objetivação.
Porém; comanda, alienando-se.
A liberdade escrava da Ciência.
Quando o homem tenta “sair” do mito através
de uma explicação racional; existe, todavia uma volta ao mito. Pois a
objetivação da ciência, e a repetição de tais explicações reduzem a liberdade
do homem. Este é um dos pontos
fundamentais no argumento adorniano; quanto mais racionalização e objetivação
da realidade, mas o seu sujeito distancia-se da realidade. O filósofo se contrapõe a sociologia de
Durkheim
quando mesmo achava que racionalidade formava uma solidariedade entre os
indivíduos... Para o filósofo Alemão, pelo contrario; quanto mais a razão
instrumental estiver em voga, mais a mesma terá poder e será autoritária.
Destruindo a liberdade humana, ainda, que, sutilmente.
A liberdade dentro de organizações
religiosas e a experiência com o sagrado.
No capítulo “dialética do esclarecimento”
Adorno possui interessantes análises sobre o processo de incorporação dos diversos
discursos que deram origem aos processos mágicos, de feitiçaria e também das religiões
ditas, tradicionais. Adorno interpreta que com a proclamação através da fé de
verdades universais; essa mesma crença deve ser sistematizada em um discurso. E
que o mesmo será repetitivo, cíclico e tautológico durante anos. Para o
pensador, essa capacidade de repetição é o que dá o poder ao discurso
religioso. Pois, o mesmo, é feito de signos que só estão disponíveis para uma
casta de sacerdotes que podem delimitar o espaço ou a fronteira entre o divino
e o profano.
O poder da razão instrumental é: “O saber
que é poder não conhece barreira alguma, nem na escravização da criatura, nem
na complacência em face dos senhores do mundo” (Adorno, 1985, p. 18).
Esclarecimento e Poder.
Por fim, gostaríamos de expor algumas
idéias que repousam sobre os comentários de Adorno sobre a questão do poder e a
ligação do mesmo com a razão instrumental. Fica até bem claro pelo que já foi
escrito até aqui, que, para esses pensadores: a função da ciência e da razão; foi sempre a de manter uma coerção
social através de signos, da linguagem e dos comportamentos sociais que possam vir
a causar um tipo de padrão aceitável e
homogêneo em toda sociedade. Obviamente, toda essa linguagem “modelada”
pela razão (fonte de alienação); é, materialmente, causa de poder de poucos
dominantes sobre inúmeros dominados.
Desde os tempos da Grécia onde os filósofos
como Platão e Aristóteles promulgaram as sua verdades cosmológicas,
universalistas e metafísicas; o homem que não era pertencente aquele grupo
deveria se sujeitar a tais explicações. Todavia, como bem diz Adorno, todo esse
poder acaba voltando contra o próprio dominante; já que à razão instrumental
possui a capacidade de nulidade e de fomentar a irracionalidade; ainda que esse
irreal possa ainda não ser compreendido pela ciência ou filosofia.
Outro território muito criticado pela Teoria
Crítica; seria também o poder sobre as mercadorias em processo capitalista de
produção. A burguesia (ou dominantes) em
posse da linguagem científica plausível e aceitável; poderia comandar gostos,
modas e tendências culturais; o que obviamente acabaria criando toda uma espécie
de homogeneização comportamental, como, outrossim, de pensamentos, atitudes,
crenças e valores. Aqui Adorno coloca em evidência o conceito de cultura de massa
que segundo ele seria uma fonte importante para o domínio e manutenção do poder
da classe burguesa sobre os diversos dominados.
Diz o autor: “As inúmeras agencias da
produção em massa e da cultura por ela criada servem para inculcar nos
indivíduos comportamentos normalizados como únicos naturais, decentes e
racionais” (Idem, p. 35). Talvez esse seja o grande poder da razão instrumental
no processo de alienação da subjetividade do sujeito: a dominação autoritária,
tirânica e opressora.
Conclusão:
Tentamos, ainda que, sumariamente
mostrar e articular de alguma maneira a forma como ficou conhecido a Teoria
crítica da escola de Frankfurt. Embora, a linguagem e os conceitos estejam em
grande maioria em clave Marxista a mesma possui outro tipo de critica. Que
seria “o ataque” aos parâmetros culturais; e, não apenas economistas ou
“economicistas” tão peculiares (pelo menos ao nosso ver) ao Marxismo. Através
de uma arma poderosa que é o saber o homem pode se elevar como pode se corromper. Cabe, portanto, para os
pensadores críticos uma análise desse saber; pois como diz o filósofo em uma
afirmação categórica: “Portanto, a superioridade do homem está no seu saber,
disso não há dúvida (Idem, p. 17).
Bibliografia:
Adorno, Theodor. Dialética do esclarecimento: fragmentos
filosóficos Theodor W. Adorno, Max Horkheimer; tradução, Guido Antonio de
Almeida- Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985
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