terça-feira, 8 de outubro de 2013



O texto religioso, ritual e  coerção social

- Ponto de vista de  Michel  Foucault

 "Pois a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e as intenções do coração"   Hebreus 4: 12.

"Suponho que em toda a sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e retribuída por certo número de procedimentos que tem por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada materialidade"( Foucault, Michel. A ordem do discurso, p. 8-9).
                                                                        

Podemos abordar, uma questão central do fenômeno religioso( discurso sagrado), à partir de uma clave Foucaultiana; ainda que, acredito pessoalmente,  essa abordagem seja no  "mínimo provocadora".

 Todavia,  se não é de provocações que se vive a filosofia? Paciência então...


 Focaremos no discurso bíblico do cristianismo; é isso, pois, ao que aqui no referimos como "discurso do sagrado".

 Quando lemos qualquer evangelho, percebemos nos mesmos ( devido a sua longa historicidade)  uma série de comentadores que se estendem-se  sobre toda a história cultural do mundo ocidental. É, pois, evidente, que se criou, até mesmo, toda uma ciência teológica( entenda-se ciência não como conceito moderno), como foi a teologia católica medieval,  a partir da citada revelação cristã.

Esse texto de cunho sagrado; dentro das diversas teologias que ramificaram-se no mundo ocidental, é  constantemente renovado, constantemente multifacetado e, não menos, constantemente legitimado. Esse discurso primeiro; será, pois o centro daquilo que o filosofo Francês chamara de: "centro de  poder das sociedades fabricadoras de discursos".

Dentro do comentário, instaura-se um processo tautológico de penetração do discurso, amiúde, em diversas  camadas do social. É  nesse "ritmo", ou melhor dizendo, nessa cadência, de harmonia e de dissonância; que estaria a gênese  da genealogia do poder para Foucault.

Definido, principalmente,  por um processo de coerção, de proibição da palavra,  e regulamentando comportamentos ; distinguimos claramente aquilo que pode ser dito ou não dito dentro da esfera do sagrado. Dito de outro modo, "o discurso primeiro" fortemente comentado, valorizado e simbólico; ganha sobre os homens a clara  demarcação entre o puro e o ímpio.

 Esse discurso, ou melhor essa palavra( agora a partir de uma força de poder) é sempre, outrossim, marcada por uma forte ritualização. " Os discursos religiosos , judiciários ou terapêuticos e, em parte também, políticos não podem ser dissociados dessa prática de um ritual que determina para os sujeitos que falam, ao mesmo tempo, propriedades singulares e papéis estabelecidos. " ( Foucault, 1962, p. 39)

 Ainda nesse raciocínio; podemos perceber que o  ritual dá direito e proclama deveres; que somente podem ser marcados e delimitados dentro do campo religioso por uma grupo limitado de indivíduos. É notório, que independendo da religião, a maioria das mesmas produzem uma casta de sacerdotal, ou dito, teologicamente, uma "comunidade eclesiológica".  Seria esse grupo (sujeitos ativos), legitimados pelo discurso e pelo ritual do mesmo;  que  passariam a possui um poder de dimensão de coerção amplo dentro de uma específica esfera social.

Outras ideias, sobre o discurso, estariam  ainda no campo do ensino e da disciplina religiosa.  Obviamente, toda uma casta sacerdotal, passa pois pelo crivo do ensino e da disciplina teológica. "O que é afinal um sistema de ensino senão uma ritualização da palavra; senão uma qualificação e uma fixação dos papeis do sujeitos que falam"( Idem, p. 44).  Podemos, pois, observar que já no ensino do sacerdote ou do papel eclesiástico, existe no ensino um papel de ritual.  Marcados por uma relação dialética de comentários, práticas devocionais e comportamentos legitimados; os mesmos são ramificações determinantes e determinadores do "discurso primeiro".

 Concluindo;  o ritual do discurso e a legitimação do poder religioso poderíamos  arriscar a dizer, pelo menos  na visão Foucaultiana,  produz uma "espécie de neblina"  que ofusca nossos olhos e que não nos faz enxergar a gênese e a genealogia do poder; que seria, para o  filosofo o  discurso primeiro de uma  sociedade ( neste nosso exemplo "o evangelho") . Tamanha é, pois,  a sua capacidade de dominação, ainda, que, não aparente... Pois  o mesmo se propaga de maneira eficaz e quase que imperceptível. Formando, não menos que como  metaforicamente "teias invisíveis e multifacetadas  de dominação"; porém repousando, sempre,  sobre um centro genealógico de poder.



Bibliografia: Foucault. Michel.  A ordem do discurso( L' ordre du discours). 1962. Edições Loyola. São Paulo.