quarta-feira, 25 de setembro de 2013


A Teoria Crítica de Adorno e Horkheimer - Liberdade, Poder e Escravização Moderna. Análise baseada no livro: “Dialética do Esclarecimento”. [1]

 

 

       Introdução.

O processo de dialética do esclarecimento marcou, pois, uns dos fundamentais pilares do pensamento; principalmente na sociologia e, outrossim, na filosofia contemporânea. .A chamada “teoria crítica” proferida por Adorno e Horkheimer; marcaram uma ruptura para integibilização do processo histórico da chamada época da razão; ou, dito de outro modo: das causas e resultados do Iluminismo no Ocidente.  Desenvolveremos o nosso trabalho tendo como foque os conceitos de: liberdade, poder e escravização em perspectiva frankfurtiana.

 

    Conjuntura do pensamento de Theodor Adorno.

Se faz mister; pois, entender o problema colocado por uma escola de pensamento; e, também qual a sua contribuição ao longo da História da Filosofia. Vamos aqui expor sumariamente para que nós possamos analisar a filosofia da escola de Frankfurt dentro dessa historicidade.

Com a saída da modernidade (principalmente com as filosofias de Kant e Hegel e o Marxismo); surge uma grande manifestação para pensar problemas que até então não tinham sido abordados da maneira como iremos descrever nesse trabalho. Se o Kantismo é o fundador da epistemologia moderna; e Hegel um dos últimos a propor “um grande” sistema filosófico; o que os Frankfurtianos tentaram promover em sua filosofia será uma Teoria Crítica (inspirada na dialética hegeliana e em alguns conceitos do Marxismo) para tentar entender a falha do projeto iluminista; ou seja, o fracasso da “Razão Instrumental”.

Como que a liberdade (que foi um arauto dos tempos modernos; e que nos prometeu salvar e desencantar o mundo que fora dominado pelo pensamento escolástico); pode manter-nos aprisionado e coisificados? O que é a razão instrumental? Será o homem  Racional da Ilustração realmente livre?

Esses problemas originais; e, igualmente suas respostas, serão dadas por Adorno em suas reflexões filosóficas.

         

      A Filosofia.

       Para Adorno um dos grandes problemas da modernidade seria a coisificação do ser humano através do esclarecimento ou de um razão instrumental. Porém o que viria a ser essa razão? Segundo os filósofos; a partir não apenas do iluminismo, porém já nas grandes narrativas homéricas; o homem com o objetivo de desmitologizar a natureza para melhor compreende-la, controlar e dominá-la; se fez necessário definir conceitos, teorias e princípios analíticos que prometiam ao ser humano uma maior liberdade de pensamento e de ação em qualquer conjuntura. Isso seria, pois, a Razão Instrumental: uma hipérbole da valorização do racional para a  sua instrumentalização e dominação no mundo.

 

Com o inicio da modernidade existiu, segundo os autores, toda uma matematização das ciências. A configuração clássica proposta por Francis Bacon sobre os diversos “ídolos” que impediriam o avanço da mesma é muito citado por Adorno. Para o esclarecimento, aquilo que não se reduz a números; e, por fim a uma “certeza apodítica” passa a ser uma ilusão. Sendo que: “o positivismo moderno remete-o para a literatura” (Adorno, 1985 p. 27).  

 

Assim a Ciência Moderna com a sua promessa de liberdade de pensamento e desencantamento do mundo aparece como um engodo para o homem racional. Não mais liberdade; porém escravização, submissão à linguagem, aos comportamentos e, outrossim, aos signos da mesma.

No livro supracitado ocorre uma longa discussão sobre as primeiras explicações mitológicas. Os mitos, segundo os autores, ganharam força não somente pelo seu caráter explicativo; porém pelo seu caráter repetitivo em discurso.  O que outrora era feito com a magia, com os rituais, sacrifícios, holocaustos e linguagem esotérica; hoje acontece o mesmo processo de alienação e de dominação através do cientificismo.  Pois aquele que domina a linguagem científica, possui, ou, controla o poder... Todavia aquele que é alheio a mesma está sempre subjugado e dominado por essa linguagem e pensamento.

O comportamento humano e às tendências hodiernas são montadas por verdades não, mas míticas; porém, cientificas.  E a ciência ou as suas verdades que são múltiplas, porém, que buscam sempre a universalidade; possuem a capacidade de moldar e engendrar diversas tipologias comportamentais, de valores e padrões no seres humanos. Graças à repetição ou sublimação (conceito muito utilizados tanto na psicanálise quando em Adorno) acabam gerando um efeito cíclico, hipnótico sobre as diversas pessoas de um corpo social.

O preço da dominação não é meramente a alienação dos homens com relação aos seus objetos dominados; com a coisificação do espírito, as próprias relações dos homens foram enfeitiçadas, inclusive as relações de cada individuo consigo mesmo (ADORNO, HORKHEIMEN, 1985, p. 35)

 

Soma-se isso ao fato de toda a ciência atual está configurada em linguagem matemática; o que dá uma falsa impressão de neutralidade cientifica. Porém é de notar que quanto mais avançamos em caráter cientifico, tecnicista e mecanicista; mais coisificamos a nós mesmos.  Assim, pois, a interpretação frankfurtiana é que: a perda do sujeito, ou do “eu” moderno é uma característica da sociedade burguesa.

 

A divisão do trabalho e a promoção da hierarquia social ajudam também que existiam diversas camadas de discursos; e que muitos se sobreponham uns aos outros. Dito de outro modo, a objetivação complexa da realidade acaba por gerar uma nulidade do sujeito que pretendia dominar a natureza. Porém, que agora volta à irracionalidade, e, também: a “ilogicidade”. Todavia com uma “certeza” afirmada pelo caráter positivista das ciências.  Nesse sentido percebemos que a dialética do esclarecimento nada mais é que um pensamento totalitário que busca não somente a hegemonização; porém como a modelagem dos diversos atores sociais em um determinado lócus.

 A liberdade proposta pela hipostasia da razão instrumental, segundo Adorno, gerou uma grande paradoxo (ainda que irônico e pessimista): proclamou a destruição, alienação, escravidão de todos aqueles entes que vivem dentro dessa linguagem cientificista, analítica e conceitualista.

O mito recontado e dentro de um processo histórico passa a ter força de uma doutrina. Dito de outro modo, o mito passa a ser fonte de significação para a explicação do mundo. A partir da conversão do mito em esclarecimento; o homem comanda a natureza através da objetivação. Porém; comanda, alienando-se.

     A liberdade escrava da Ciência.

Quando o homem tenta “sair” do mito através de uma explicação racional; existe, todavia uma volta ao mito. Pois a objetivação da ciência, e a repetição de tais explicações reduzem a liberdade do homem.  Este é um dos pontos fundamentais no argumento adorniano; quanto mais racionalização e objetivação da realidade, mas o seu sujeito distancia-se da realidade.  O filósofo se contrapõe a sociologia de Durkheim quando mesmo achava que racionalidade formava uma solidariedade entre os indivíduos... Para o filósofo Alemão, pelo contrario; quanto mais a razão instrumental estiver em voga, mais a mesma terá poder e será autoritária. Destruindo a liberdade humana, ainda, que, sutilmente.

A liberdade dentro de organizações religiosas e a experiência com o sagrado.

No capítulo “dialética do esclarecimento” Adorno possui interessantes análises sobre o processo de incorporação dos diversos discursos que deram origem aos processos mágicos, de feitiçaria e também das religiões ditas, tradicionais. Adorno interpreta que com a proclamação através da fé de verdades universais; essa mesma crença deve ser sistematizada em um discurso. E que o mesmo será repetitivo, cíclico e tautológico durante anos. Para o pensador, essa capacidade de repetição é o que dá o poder ao discurso religioso. Pois, o mesmo, é feito de signos que só estão disponíveis para uma casta de sacerdotes que podem delimitar o espaço ou a fronteira entre o divino e o profano.

   O poder da razão instrumental é: “O saber que é poder não conhece barreira alguma, nem na escravização da criatura, nem na complacência em face dos senhores do mundo” (Adorno, 1985, p. 18).

     Esclarecimento e Poder.

Por fim, gostaríamos de expor algumas idéias que repousam sobre os comentários de Adorno sobre a questão do poder e a ligação do mesmo com a razão instrumental. Fica até bem claro pelo que já foi escrito até aqui, que, para esses pensadores: a função da ciência e da razão; foi sempre a de manter uma coerção social através de signos, da linguagem e dos comportamentos sociais que possam vir a  causar um tipo de padrão aceitável e homogêneo em toda sociedade. Obviamente, toda essa linguagem “modelada” pela razão (fonte de alienação); é, materialmente, causa de poder de poucos dominantes sobre inúmeros dominados.

Desde os tempos da Grécia onde os filósofos como Platão e Aristóteles promulgaram as sua verdades cosmológicas, universalistas e metafísicas; o homem que não era pertencente aquele grupo deveria se sujeitar a tais explicações. Todavia, como bem diz Adorno, todo esse poder acaba voltando contra o próprio dominante; já que à razão instrumental possui a capacidade de nulidade e de fomentar a irracionalidade; ainda que esse irreal possa ainda não ser compreendido pela ciência ou filosofia. 

Outro território muito criticado pela Teoria Crítica; seria também o poder sobre as mercadorias em processo capitalista de produção.  A burguesia (ou dominantes) em posse da linguagem científica plausível e aceitável; poderia comandar gostos, modas e tendências culturais; o que obviamente acabaria criando toda uma espécie de homogeneização comportamental, como, outrossim, de pensamentos, atitudes, crenças e valores. Aqui Adorno coloca em evidência o conceito de cultura de massa que segundo ele seria uma fonte importante para o domínio e manutenção do poder da classe burguesa sobre os diversos dominados.

 

Diz o autor: “As inúmeras agencias da produção em massa e da cultura por ela criada servem para inculcar nos indivíduos comportamentos normalizados como únicos naturais, decentes e racionais” (Idem, p. 35).   Talvez esse seja o grande poder da razão instrumental no processo de alienação da subjetividade do sujeito: a dominação autoritária, tirânica e opressora.

 

Conclusão:

Tentamos, ainda que, sumariamente mostrar e articular de alguma maneira a forma como ficou conhecido a Teoria crítica da escola de Frankfurt. Embora, a linguagem e os conceitos estejam em grande maioria em clave Marxista a mesma possui outro tipo de critica. Que seria “o ataque” aos parâmetros culturais; e, não apenas economistas ou “economicistas” tão peculiares (pelo menos ao nosso ver) ao Marxismo. Através de uma arma poderosa que é o saber o homem pode se elevar como  pode se corromper. Cabe, portanto, para os pensadores críticos uma análise desse saber; pois como diz o filósofo em uma afirmação categórica: “Portanto, a superioridade do homem está no seu saber, disso não há dúvida (Idem, p. 17).

 

Bibliografia:
Adorno, Theodor. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos Theodor W. Adorno, Max Horkheimer; tradução, Guido Antonio de Almeida- Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985


[1] Vide bibliografia.